Tulio Paschoalin Leao

Próxima estação: burguesificação. Cuidado com o vão entre as classes!

· Tulio Paschoalin Leao · 5 min

Estava de bobeira no Discord do OpenRCT2 há alguns meses quando um colega perguntou se alguém queria uma cópia gratuita do SteamWorld Build, já que ele tinha uma chave sobrando da compra de algum Humble Bundle ou parecido1. Como eu estava à toa e era fã de outros títulos da série2, disse “por que não?”.

A coleção do SteamWorld contém diferentes gêneros de jogo (turnos, plataforma, construir cidades) todos ambientados no mesmo universo onde robôs movidos a vapor vivem em um mundo pós-apocalíptico tecnavapor (steampunk). Ele conta com artes incríveis, piadas inteligentes e acaba sendo bem divertido, então estava empolgado.

O SteamWorld Build te coloca no papel de um planejador/desenvolvedor de cidades: você tem de construir moradias para os trabalhadores e fábricas para que eles trabalhem e produzam o que a sua pequena sociedade demanda para continuar avançando, e é aí que as coisas começam a se tornar mais carregadas.

Spoilers da mecânica do jogo adiante

No começo você consegue apenas construir moradia para os trabalhadores, armazéns gerais e estradas de terra para conectá-los, já que pra começar isso é tudo o que eles precisam. Satisfazer suas necessidades é tanto uma mecânica para destravar novas construções quanto para atrair mais moradores, que você logo precisará para atender as novas fábricas e progredir ainda mais no jogo3.

Captura de tela muito ampliada mostrando um trabalhador robô andando pela estrada de terra em direção ao armazém geral ao lado de algumas casas de trabalhadores.

Um trabalhador também tem suas necessidades

A pegadinha é que conforme o jogo progride, esses trabalhadores começam a requerer mais coisas, um armazém geral não é mais o bastante, eles agora querem uma loja de serviços, carvão e água de cacto, tudo a uma distância caminhável, como ousam4!

O jogo não para aí, no entanto, em algum momento você junta trabalhadores o suficiente aliados a uma economia fortalecida para avançá-los ao próximo nível: promover alguns deles a engenheiros5, que você realiza ao melhorar as casas deles já existentes. Como recém chegados a essa nova e fresca realidade, os engenheiros ainda se atém a alguns hábitos de consumo do passado enquanto criam novos, como pedir por água tratada e serviço de lavagem, já que tem necessidades básicas de higiene!

Captura de tela ampliada mostrando um robô engenheiro andando pela estrada de terra ao longo de casas de engenheiros.

Que “sentimento” bom de ser engenheiro

E por assim vai, eventualmente se faz a melhoria das casas desses para abrigar aristobots que ainda querem água pura e serviço de lavagem, mas também uma oficina de enceramento e um cassino. Ah, e não me faça contar dos requisitos deles quando se tornarem cientistas, chegam até a exigir ARTE! Eis aqui uma colagem de cada uma das demandas deles ao fim do jogo, lembrando que todas tem de ser atendidas para avançar:

Uma colagem dos 4 tipos de robôs do jogo e suas necessidades, com os trabalhadores demandando apenas 5 artigos enquanto os outros três pedem por 10 coisas de complexidade e custo mais elevado.

Necessidades dos trabalhadores (esquerda, topo), engenheiros (esquerda, baixo), aristobots (direita, topo) e cientistas (direita, baixo)

Já deu para perceber como o jogo tem semelhanças desconfortáveis com a nossa sociedade atual?

#1 O desenvolvimento empurra trabalhadores para o limite da cidade

Por ser mais fácil atender às necessidades de quem já está mais perto do centro da cidade, onde a maioria das coisas estão sendo construídas, o jogo naturalmente te faz melhorar as casas mais bem posicionadas e lentamente te transforma numa máquina6 de burguesificação/gentrificação. Por que ter engenheiros ou cientistas vivendo na periferia se você teria de reconstruir toda a infraestrutura de que eles precisam lá quando é mais fácil e barato fazê-lo com os trabalhadores?

Captura de tela do jogo ao longe mostrando que conforme ele se desenvolve, as casas mais próximas do centro se tornam das classes mais avançadas.

Cientistas vivendo no topo, à esquerda, aristobots no topo, ao centro, e engenheiros no topo, à direita. Não há casas de trabalhadores à vista

#2 Robôs mais bem posicionados são recompensados primeiro e mais

Se eles já vivem perto de todas suas atuais e futuras necessidades, deixe-os avançar ao próximo nível primeiro. O que a maioria pensaria que é meritocracia é apenas um exemplo descarado de privilégio por estar lá primeiro para colher os frutos.

#3 Diferentes camadas, benesses distintas

Por que os trabalhadores deveriam precisar de água de cacto e carvão para se sustentar, quando já existe água tratada e carne? Não há incentivo para entregar as mesmas coisas a ele porque seria difícil fazê-lo nas mecânicas do jogo, mas também talvez porque os hábitos mais refinados não seriam sustentáveis numa escala global.


Pode parecer que o artigo deu uma guinada, mas quem ainda está um pouco conectado à realidade verá que mesmo que eu esteja falando de robôs num mundo pós-apocalíptico, muito disso se traduz diretamente a nós humanos na era atual7. É fácil ver como algumas dessas mecânicas se desenrolam da mesma maneira no nosso mundo e infelizmente não parece ter uma solução fácil e imediata enquanto o capitalismo, como um sistema de exploração e maximização de desigualdade, continua sendo dominante.

Não tenho ideia se os desenvolvedores do jogo queriam provocar tais sentimentos ou não, apesar de ter visto algumas análises de pessoas com sensações parecidas, ainda assim é uma percepção perturbadora e no mínimo mostra que os jogos são bem mais que apenas “perdas de tempo que não te levam a lugar algum”.


  1. Obrigado, janis! ↩︎

  2. SteamWorld Dig e SteamWorld Heist, ambos os quais eu recomendo! ↩︎

  3. Quase um esquema de pirâmide. ↩︎

  4. Aviso de sarcasmo. ↩︎

  5. Se eles apenas soubessem onde estão se metendo. ↩︎

  6. Com o perdão do trocadilho, apesar de ser um bom, já que é um jogo de robôs. ↩︎

  7. Que alguns diriam ser exatamente para onde estamos rumando. ↩︎

#crônicas #jogos

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