Tulio Paschoalin Leao

Terminando com o Google #2 — O expurgo do Gmail

· Tulio Paschoalin Leao · 10 min

Terminando com o Google

Esse artigo é parte da série “Terminando com o Google”, um experimento pessoal de desvencilhamento do ecossistema do Google, um serviço por vez. Visite a tag #terminando-com-o-google para ler mais.

No primeiro artigo eu percebi que minha maior prioridade para sair do Google seria me livrar do Gmail, e já tenho desejado fazê-lo há vários anos, mas algumas coisas sempre pareciam trabalhosas demais e se tornavam obstáculos, principalmente:

  1. Meu arquivo de e-mails imenso
  2. Todos os lugares onde teria de atualizar meu e-mail como credencial para login ou receber comunicações.

Claro que alguém poderia apenas configurar um redirecionamento automático do endereço antigo para o novo e esquecer do resto1, que é o que vários serviços oferecem fazer automaticamente para te atraírem, mas isso apenas varre o problema pra debaixo do tapete. Então parti em busca de entender o tamanho do problema.

Limpando o meu arquivo

Faz pelo menos 20 anos desde que criei a minha conta2 e, surpreendentemente, o e-mail não mudou muito desde então. Teve a ascensão e queda do Inbox do Gmail para mim e o fato de que a maioria das pessoas hoje lê as mensagens no celular, em vez do computador, mas em termos de interface parece muito do mesmo, com os mesmos líderes de mercado e uma melhoria razoável nos filtros de spam.

Em algum momento o Gmail introduziu abas para categorizar e-mails, apesar de eu tê-las desativado sem pensar duas vezes e recorrido apenas às minhas etiquetas3, que categorizam tudo: e-mails promocionais, notícias da universidade, confirmações de viagem, notas fiscais de compras e assim por diante. No fim, havia tanto e-mail arquivado que eu via o Gmail como um dragão acumulador enquanto eu tentava fugir:

A imagem mostra um dragão em uma caverna montanhosa deitado em uma grande pilha de e-mails. Ele tem padrão de cores que lembra o arco-íris, e também o logo do Google, e há um pequeno e assustado homem correndo dele com um dos e-mails em mãos.

Imagem gerada por IA usando ChatGPT com uma descrição similar a “A dragon, mimicking the kind of common knowledge that dragons are hoarders of treasure, but in this case, it’s of e-mail. The dragon is prismatic, like the ones described in D&D, but instead of single color, it is multi-colored patterned with the Google colors and in front of it there is a Bilbo Baggins-like nerd with beard and turtle-patterned glasses running from him and his pile of e-mails”

De qualquer forma, decidi começar o expurgo porque estava rapidamente atingindo o meu limite de armazenamento do Google e mesmo o Gmail estando longe de ser o grande vilão em termos de espaço, parecia a desculpa perfeita para finalmente fazer essa limpeza. Naquele momento, ele ocupava 5.5GB do meu espaço, distribuídos por mais de 30.000 e-mails e se eu passasse por cada um em 2s, levaria mais de 16 horas para revisar todos. Era tempo demais4, mesmo a estimativa não sendo realista: abrir, passar o olho e tomar uma decisão em 2s. Se fossem 5s, tomaria quase dois dias inteiros, então eu precisava de uma outra alternativa.

Passo 1: Google One Storage Manager (Gerenciador de Armazenamento do Google One)

No seu gerenciador de armazenamento, o Google oferece uma opção chamada “Remover itens sugeridos” que para o Gmail te mostra quais são suas mensagens com os maiores anexos: superiores a 20MB, entre 10MB e 20MB ou menores que 10MB. Comecei daí e rapidamente reduzi o espaço a 3GB sem deletar mais do que 100 e-mails, dali em diante, no entanto, não era mais a melhor interface para continuar com a limpeza, já que apenas mostrava 14 e-mails restantes ocupando 130MB enquanto eu mesmo teria de me virar para encontrar os responsáveis pelos 2.9GB adicionais.

Posso pensar em alguns motivos pelos quais o Google não torna mais fácil administrar sua caixa de entrada:

  1. A ferramenta já te ajuda a limpar rapidamente os maiores problemas, sendo uma boa troca.
  2. Ele ganha mais se você desistir e só decidir pagar um plano maior do Google One.
  3. Possivelmente não é mais vantajoso investir no Gmail, ele sendo uma commodity estável.

Então precisei pensar em outras estratégias para continuar em frente..

Passo 2: Manualmente passear pela minha caixa de e-mails

Então troquei para investigar meus e-mails guiado pelas minhas categorizações por etiquetas. Começando com “promoções”, eu iria até a última página, selecionaria todas as mensagens, daria uma olhada rápida nos seus títulos, removendo a seleção dos que queria manter. Estava funcionando, mas conforme progredia nas páginas, tinha de remover mais e mais seleções e como cada página só mostrava 50 e-mails por vez, ter de clicar em 10 deles significaria desfazer 20% das seleções em cada página, com potencial de crescer com o tempo, e isso não iria escalar para algo que era 99% e-mails indesejados.

Percebi então que seria melhor não parar para deletar a cada página, e sim acumular as seleções em grupos maiores5, que pareceu uma boa decisão, já que eu tinha feito a triagem de mais de 2.000 e-mails para serem deletados, então algo aconteceu:

Cliquei no lugar errado da página e todas as seleções foram perdidas.

Quase me doeu fisicamente, dezenas de minutos de trabalho desapareceram em um instante e estava lamentando ter de fazer outra vez, então preferi mudar de tática: passava por algumas páginas notando qual era o remetente mais comum, depois pesquisava por ele, limpava todos os e-mails relativos àquele e repetia, o que tornava mais certeiro que estivesse limpando o “mais predominante”. Isso tornou bem mais fácil decidir o que manter ou não, já que de um mesmo remetente era mais fácil predizer o conteúdo e logo, com apenas os 10 remetentes mais comuns, excluí outros dez mil e-mails. Aqui está o top 10, caso tenha curiosidade:

  1. Amazon - 2.000
  2. TED - 1.421
  3. TeeNOW - 800
  4. Centauro - 809
  5. Nubank - 750
  6. Airbnb - 696
  7. Uber - 533
  8. Kickstarter - 452
  9. Tripadvisor - 417
  10. Humble Bundle - 415

O restante foi bem mais entediante, apenas “lave e repita” até restarem apenas mil e-mails no total (partindo de 30.000!), e sabe qual o espaço que o Gmail ocupava agora? 2.5 GB 🤡

Passo 3: Passando o pente fino

Fiquei em choque, como mesmo após reduzir o número de e-mails em 97%, tendo deletado os maiores, eu ainda estava na metade do caminho em termos de espaço? Nesse momento era uma quantidade administrável de mensagens, pelo menos, então decidi tomar o caminho mais longo e olhar um por um.

O Google não mostra nenhuma informação de tamanho no Gmail, apesar de você poder pesquisar dando uma restrição de tamanho, então precisava de outra maneira de inspecionar as mensagens. Decidi baixar tudo usando o Google Takeout, um serviço que te permite pegar todo e qualquer dado que o Google tenha sobre você e levar embora. Ele te entrega um zip com um ou mais arquivos dentro, dependendo do que você tiver solicitado, de quanta informação for e de como escolheu dividi-la6. No meu caso havia 2 arquivos: um JSON diminuto com minhas configurações de e-mail e um arquivo .MBOX de 2.55GB com todos os meus e-mails restantes.

Como eu nunca tinha visto o formato .mbox antes, minha primeira tentativa foi abri-lo no Visual Studio Code, que é o que sempre faço quando me deparo com uma nova extensão, e isso foi o que vi:

Um aviso de alerta mostrado pelo Visual Studio Code dizendo que o arquivo não foi exibido porque é muito grande, mas permitindo ao usuário escolher abri-lo mesmo assim.

Certamente você não quer abrir um arquivo de 2.55GB?

“Abrir mesmo assim”, não chegamos até aqui para morrer na praia VSCode!

Uma janela de erro mostrando que o Visual Studio Code apresentou um problema de funcionamento ao tentar abrir o arquivo grande.

Oba, um erro!

Tentei outros editores que também se negaram7, logo não funcionaria, e procurando por alternativas na internet para ler um arquivo .MBOX encontrei o Thunderbird, cliente de e-mail offline da Mozilla, ou um serviço online. Não queria usar o primeiro porque achei que seria mais complicado do que precisava, já que é um cliente de e-mail completo e ainda não estou migrando. O segundo não quis por ser online e nunca sabermos o que estariam fazendo com os meus dados. Eventualmente encontrei uma alternativa de código aberto, o MBox Viewer:

Uma janela simples que se assemelha a um cliente offline de e-mail mostrando a lista de mensagens com data, título, recipientes, tamanho e uma prévia do e-mail abaixo.

Uma visão simplificada do MBox Viewer mostrando meu arquivo de e-mails

De cara, nota-se várias coisas interessantes:

  1. Ela me permite ordenar por qualquer coluna, o que:
    • Poderia ter feito meu passo 2 mais simples ao ordenar por “remetente”
    • Me empodera para ordenar por tamanho e encontrar os e-mails restantes!
  2. Mostra “Mail xx of 39191” (e-mail XX de 39191)8, e achei que tinha deixado apenas mil emails !?

Parece que no fim o serviço de Takeout do Google exporta tudo, incluindo a pasta de spam, que estava vazia, e a lixeira, que ainda continha mais de 30 mil e-mails, já que o Gmail só limpa as mensagens da lixeira que estão lá há mais de 30 dias. Cliquei então no poderoso botão de “Limpar lixeira agora” e após alguns minutos e duas tentativas9 ela ficou limpa e, para minha surpresa, o Gmail agora ocupava apenas 0.23GB do meu armazenamento! Acho que toda a limpeza do passo 1 foi visivelmente eficiente porque os anexos eram muito grandes para a lixeira, mas não os e-mails do passo 2, foi um alívio ver que esse não tinha sido em vão.

Mesmo assim quis continuar limpando o meu e-mail, porque se eu for levá-los a qualquer lugar num próximo passo, não quero ter de carregar mensagens inúteis, mesmo se não ocuparem espaço, então voltei ao Google Takeout para outra rodada. Tentei abrir no VSCode só por diversão e funcionou10, mesmo assim continuei usando o MBox Viewer que me dizia que haviam 2366 e-mails, duas vezes o que estava vendo no Gmail. Por sorte ele tem uma funcionalidade de “Reconstruir etiquetas do Gmail”, então você pode recategorizá-los do mesmo jeito que no aplicativo e essa é a distribuição das mensagens restantes:

CategoriaNúmero de e-mails
Caixa de Entrada21
Arquivados1360
Enviados562
Chat805

Essa distribuição conta cada e-mail de uma mesma sequência separadamente, que é de onde parte da divergência vem. Além disso, os números superam o total porque um e-mail pode ser tanto um chat quanto um arquivo.

Minha maior batalha agora era decidir se queria abrir mão da nostalgia ou não: antes de começar a limpeza, muitos dos meus e-mails eram inúteis (promoções), úteis (notas fiscais)11 ou potencialmente úteis: históricos de conversa com amigos e família que podem ter algo que eu queira lembrar em algum momento. Excluir esse último é difícil, porque é o tipo de coisa que te leva a pensar coisas como:

Não seria legal ler essas mensagens daqui a 20 anos?

Em contraste, fazem 10 anos que eles estão ali e não os leio, então esse momento pode nunca chegar. No fim, decidi deletar todos os chats e alguns e-mails arquivados a mais, mantendo apenas as conversas com familiares e amigos, que estão bem agrupadas caso decida as deletar no futuro.

Conclusão

Senti uma paz de espírito de finalmente ter promovido essa limpeza e preparado a fundação para a migração acontecer e estou satisfeito de terminar com 0.2GB de armazenamento utilizados que seria pouco o bastante para migrar para qualquer serviço grátis por aí. Por total acaso, quando estava terminando o artigo, recebi essa mensagem:

Um e-mail do Google indicando que um de meus e-mails de backup para recuperar o acesso à conta, usando o Yahoo, está inacessível.

Adeus meu e-mail do Yahoo

Parece que o Yahoo decidiu deletar minha conta de e-mail bastante inativa e agora estou sem e-mail de backup, mais um motivador para manter essa série bem ativa😊.


  1. Que é o que pretendo fazer no início para não mergulhar fundo cedo demais. ↩︎

  2. Talvez mais, já que peguei essa data do “Membro desde” do YouTube, mas ele só conta desde sua aquisição pelo Google. ↩︎

  3. Ou pastas, dependendo do que o serviço que você usa as nomeia. ↩︎

  4. Mesmo que estivesse muito à toa na hora. ↩︎

  5. Talvez quando o número de “e-mails a manter” atingir 50? ↩︎

  6. Você pode escolher dividir o conteúdo em arquivos de 1, 2, 4, 10 e 50GB. ↩︎

  7. Antigravity (que é essencialmente o VSCode, então avisou e deu problema do mesmo jeito) e o Bloco de Notas do Windows, que se recusou a abrir sem nenhuma maneira de forçar. ↩︎

  8. Essa parte não estava traduzida mesmo na versão em Português, mas o mantenedor já está ciente↩︎

  9. Na primeira tentativa ele desistiu de deletar tudo e ainda restavam 5 mil e-mails, mas na segunda ele terminou com sucesso. ↩︎

  10. Um arquivo com 3.543.445 lines! Achei que o anterior tivesse dado errado por ter um integer overflow em algum lugar (especialmente por ter mostrado um número negativo na mensagem de erro), mas 10x esse número ainda é longe do famoso INT_MAX, então deve ser outra coisa. ↩︎

  11. E que precisei de uma logo após deletar tudo e não sabia dizer se tinha deletado errado ou se nunca esteve lá. ↩︎

#terminando-com-o-google #experimentação #aprendizados

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