O Ano da Experimentação - Microaprendizagem
Esse artigo é parte da série “Ano da Experimentação”, confira os outros lá!
O que é Microaprendizagem?
De maneira não muito científica, a vejo como:
Um jeito de levar pessoas preguiçosas a aprender algo novo, com pouco esforço.
Se quiser uma explicação melhor mais abrangente, pode consultar a Wikipedia.
Por que Microaprendizagem?
Eu tinha o desejo de adquirir conhecimento novo, mas o pensamento de começar um curso de múltiplos meses no edX, Udemy ou Coursera me fazia suar frio imediatamente, já que parecia ser um compromisso muito grande antes de saber no que estaria me envolvendo1, e assim nunca comecei nenhum.
Um dia, no entanto, apareceu uma viagem para a Itália2 e eu quis aprender Italiano básico para conseguir me comunicar, então baixei o Duolingo e foi assim que tudo começou.
Escolhendo os aplicativos
Ao contrário do experimento dos navegadores isso não começou como uma competição para eleger o melhor aplicativo de microaprendizagem para mim, em vez disso foi uma maneira de finalmente começar a aprender algo que eu sempre tive vontade, mas constantemente procrastinava. Queria trabalhar em duas frentes: aprender Italiano e mais teoria da ciência da computação.

Figura gerada por IA com o texto “Faça uma montagem onde esses dois mascotes das fotos em anexo estão em pose de batalha/duelo um com o outro, que seja bem viva e colorida” usando ChatGPT e dando as imagens dos mascotes
Não houve um grande processo de escolha para eleger esses aplicativos, escolhi o Duolingo para o Italiano e o Brilliant para assuntos técnicos, porque esses foram os nomes que me vieram à cabeça.3. Ao pesquisar na internet acabei encontrando outras alternativas a ambos. Para idiomas, descobri o Pimsleur, Memrise e LingoDeer e para conhecimento científico há o Imprint e o Deepstash. Estou mencionando eles aqui como forma de guardar notas para mim mesmo, mas adoraria ouvir sobre a experiência de qualquer um que tenha usado esses outros.
Usando os aplicativos
Existe uma expressão famosa nas escolas brasileiras quando um aluno desesperado por não ter feito o dever de casa pede ajuda ao amigo nerd4, e o nerd diz:
Copia, mas não faz igual.
É uma frase simple, mas inteligente, para explicar como tentar enganar o professor de que todo mundo fez sua própria tarefa e ela encaixa como uma luva aqui, já que os dois aplicativos tem uma semelhança desconcertante:

Não consigo dizer quem foi o pioneiro dessa interface e todas suas particularidades. O Duolingo começou em 2011, enquanto o Brilliant apareceu um ano depois. Com frequência os aplicativos não se tornam super bem sucedidos de imediato, então eles podem ter pensado em interfaces parecidas ao mesmo tempo, como acontece com muitas invenções5, o que me lembro mesmo é que o Duolingo já teve uma cara bem diferente. De qualquer forma, vamos mergulhar em como cada um deles funciona.
Aprendizado
Em ambos aplicativos você começa escolhendo um curso e depois seguindo um caminho linear, como a imagem acima mostrou. Cada um desses cursos tem lições pontuais para que você complete e aos poucos elas se tornam mais difíceis conforme você as completa, para que mergulhe mais a fundo nos assuntos. A maior parte do tempo eu utilizei a versão paga nos dois, que permite que se faça múltiplos exercícios por dia e sem ser perturbado pelos anúncios.
Duolingo
O Duolingo te mostra diferentes tipos de exercício: pode ser uma atividade de escuta/leitura onde você deve preencher os espaços em branco, uma sessão de prática para rever coisas que aprendeu no passado ou uma terceira com conteúdo inteiramente novo para que você assimile.
Há muitas maneiras de responder:
- Traduzindo uma frase de um idioma para outro via digitação ou seleção de palavras pré-determinadas
- Falar uma frase em voz alta no microfone
- Escolher uma dentre diversas opções
Se errar, é possível ver o que foi o erro, mas não se pode consertá-lo no mesmo momento. Alguns tipos de lições vão lhe apresentar essa mesma pergunta novamente no fim para testar se você aprendeu, mas nem todas.
Brilliant
As lições do Brilliant não são tão categorizadas em tipos como as do Duolingo. Você só sabe como será avaliado conforme entra e progride em um módulo do curso. Conforme o faz, algumas das opções para responder são:
- Escolher uma dentre múltiplas escolhas
- Digitar a resposta correta
- Executar um programa para obter a resposta6
Se falhar, a resposta não lhe é apresentada imediatamente, como seria no Duolingo, em vez disso você pode tentar outra opção ou clicar para ver a solução do problema. Independentemente de ter acertado de primeira ou não, você sempre tem o botão de “Por quê?” para ver uma explicação mais completa daquela resposta.
Ludificação
Após começar, ambos os aplicativos se estruturam muito ao redor da ludificação (ou gamification, em inglês) para te manter engajado, como:
- Níveis: Ao terminar um conjunto de lições, eles lhe dirão que você agora é “Nível X no assunto, um tapinha nas suas costas7.
- Pontos de Experiência (ou XP): Você ganha “XP” como uma pequena recompensa toda vez que responde corretamente ou termina um exercício. Essa XP é exibida no seu perfil e serve como uma maneira de medir quão longe você chegou e também para se comparar com outras pessoas.
- Ligas: Há um contador separado para a experiência que você ganhar numa dada semana, que será utilizado para te colocar numa tabela de classificação competindo com outras pessoas pelo título de “quem aprendeu mais”8. Se você terminar muito bem ou muito mal posicionado, pode ser promovido ou demovido a outra divisão.
- Sequências: Não é microaprendizagem se não estiver fazendo um pouquinho todo dia, então os aplicativos vão contar quantos dias consecutivos você tem retornado para aprender mais9.
- Notificações: Eles vão te cutucar muito durante o dia, tanto por e-mail quanto por notificações10 para lembrá-lo que você está: prestes a perder sua sequência, não fez um exercício hoje ainda, vai ser demovido da liga atual, etc11.
O Duolingo vai bem mais longe na parte social: missão dos amigos, atividades dos amigos, medalhas mensais, conquistas, seguidores. Tem algo pra todo mundo.

O Veredito
Eles funcionam, por um tempo, especialmente para te fazer sair do lugar e da zona de conforto12. Como qualquer amigo ou familiar que viajou comigo para a Itália pode te confirmar, fui mesmo capaz de ter algumas conversas de complexidade básica a moderada com locais e eu nunca aprendi Italiano fora do Duolingo, que diz que estou no nível A2 após completar o Italiano (do Português)13.
Já no Brilliant, não sei dizer. Me sentia bem mais motivado a fazer suas lições do que as do Duolingo, tendo uma média de 40min por dia nesse app comparado aos 15min do Duolingo, mas também enquanto no primeiro eu fiz por um mês, no segundo eu estava há 8 meses seguidos. Terminei 5 matérias do Brilliant, estava na metade de uma sexta e estava aproveitando bastante o aprendizado, como entendendo “algoritmos gananciosos” ou o início de computação quântica, mas por não ter uma necessidade imediata para aplicar esse conhecimento, seu efeito foi mais me colocar em um estado de curiosidade.
Sobre a Ludificação
Ludificação e aplicativos que me mostram muitos dados sobre os meus próprios hábitos são uma tentação irresistível para mim. Não consigo dizer quantas vezes eu fiz o Duolingo por 5 minutos a mais do que eu gostaria, só para vencer o desafio de “15 minutos por dia”, ou para bater o número de lições extras necessário para que eu e um amigo não falhássemos na “missão dos amigos”.
Após terminar uma lição no Duolingo e estender sua sequência de dias ininterruptos, você é encorajado a lembrar todos os seus amigos na sua “sequência dos amigos” da lição do dia e apesar disso parecer útil e motivador, significava receber muitas notificações por dia de várias pessoas e em vários momentos, era meio maluco. Houve dias que eu fiz exercícios nos dois aplicativos já meio dormindo, só porque eu não queria perder a minha sequência.
Sobre o Duolingo
O Duolingo merece crédito já que aprendi Italiano nele, também foi uma experiência agradável mesmo que boa parte do tempo fosse um exercício de memorização. Já que ele não fornece um botão de “Por quê?” como o Brilliant14, você nunca aprende a gramática de verdade, apenas tenta deduzi-la ou fazer engenharia reversa. Tendo dito isso, fiquei bem satisfeito até que terminei o curso, quando duas coisas se tornaram bem incômodas.
A primeira era fazer os “desafios cronometrados”. Toda seção você tem duas lições onde pode obter de uma a três estrelas dependendo de se você consegue terminá-la em 90 segundos ou menos. Entendo a ideia por trás, algo como “se você consegue responder rápido, provavelmente aprendeu”, mas rapidamente virou um “que atalhos posso tomar para terminar à tempo” já que o aplicativo às vezes falharia em reconhecer minha voz, demoraria a validar a resposta ou me daria frases super compridas que gastaria muito tempo digitando.
A segunda era a prática diária, que era apenas ruim, porque repetia exercícios que você já tinha visto e algumas vezes até me ofereceu a mesma atividade de escuta duas vezes seguidas. Isso podia se tornar pior com o fato de que algumas lições ensinavam traduções erradas15, que mesmo após sinalizá-las para revisão, continuei a ver por meses a fio.
Sobre o Brilliant
Fiquei muito empolgado ao aprender seus tópicos, as visualizações utilizadas para explicar os conceitos são maravilhosas e a diversidade de coisas interativas é realmente brilhante16. Ele é muito menos invasivo no quesito da ludificação, quando comparado ao Dulingo, e o já mencionado botão de “Por quê?” para explicar a razão por trás de uma determinada resposta é extremamente útil, já que às vezes era difícil entender.
Tendo dito isso, não acredito que se possa ir além dos conceitos de uma dada tecnologia, quando tentei alguns cursos mais avançados como computação quântica, senti a necessidade com muita frequência de chutar a resposta ou ter de voltar e revisar, parecia dar alguns saltos em compreensão que eram difíceis de se seguir.
Considerações Finais
É um método que vale a pena tentar, especialmente do começo quando você ainda tem muita força mental para tomar as rédeas da ludificação e consegue aceitar perder um dia ou dois da sua sequência porque teve um dia cansativo ou só está com vontade de fazer outra coisa. Consigo enxergar como gastar 20-30 min no Duolingo + 30 min no Brilliant diariamente mataram alguns de meus outros hábitos, como ler ou programar em código aberto17, então ele demanda alguma forma de controle18.
Eu recomendo que você tente, com as seguintes configurações: um aplicativo de cada vez, com todas as notificações desligadas e talvez um limite de tempo diário, é assim que pretendo continuar no Duolingo, por enquanto, agora que aprendi que o curso de Italiano aumentou.
Aproveite a microaprendizagem!
Spoiler: não foi, já que provavelmente gastei mais tempo acumuladamente no microaprendizado do que teria gasto em qualquer curso nessas plataformas. ↩︎
Ou duas, já que fui para a Itália duas vezes com 10 anos de intervalo e nas duas ocasiões eu baixei o Duolingo alguns meses antes para me preparar. ↩︎
Parece que a propaganda funciona mesmo, né? ↩︎
O nerd amigo com frequência era eu. ↩︎
Mas não o avião! Descanse em paz, Santos Dumont. ↩︎
Porque o Brilliant tem muitos cursos de conteúdo mais técnico como programação, vários deles te dão um ambiente para digitar e rodar o código diretamente no aplicativo. É muito legal! ↩︎
No Duolingo eles até usam isso para te dizer onde você está no quadro QECR. ↩︎
Entre aspas, porque não acho que ele te ajude a aprender em alguns momentos, só te faz acertar algumas coisas para subir na classificação. ↩︎
Cheguei até 230 dias no Duolingo e 30 no Brilliant. ↩︎
Até você descobrir como desabilitar. ↩︎
O Duolingo até muda o ícone do aplicativo para ter o mascote chorando ou com raiva de você. ↩︎
Não literalmente, já que com frequência fazia da minha cama ou do sofá. ↩︎
Acabei de descobrir que após ficar um mês sem ter lições extras, o Duolingo estendeu o curso de Italiano na semana que eu parei de fazê-lo 🤡. ↩︎
Depois eu descobri que tem, mas apenas no “Duolingo Max”, um plano mais caro que eu não tinha acesso, e que também só funcionava no curso Italiano (do Inglês). ↩︎
Porque acho que ele mistura o português brasileiro com o de Portugal. ↩︎
Com o perdão do trocadilho. ↩︎
Provavelmente uma vitória pra eles, já que ficar no aplicativo é o negócio deles. ↩︎
Tenho experimentado um limite de 20 minutos por dia no Instagram e tem funcionado mais do que a encomenda. ↩︎