BH, cadê minha árvore?
Minha relação com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) é complicada: por um lado adoro ferramentas como o BH Map1 e a facilidade de poder solicitar MUITOS serviços online2, por outro é frustrante que haja tanta inconsistência na prestação de serviços e que alguns ótimos projetos nunca saiam do papel.
A ideia desse artigo nasceu da frustração com um serviço e evoluiu conforme encontrei o “Plano Municipal de Arborização Urbana de Belo Horizonte” (PMAU-BH) em minhas pesquisas. Acho que é uma história interessante em geral, principalmente se você reside aqui, então vamos lá!
Túlio e o Portal de Serviços da PBH
Origem
Por algum motivo eu sempre soube que era possível solicitar diversos serviços à PBH de forma virtual, mas até 2020 nunca utilizei para algum outro fim senão o de assumir autoria de algumas infrações de trânsito3.
Em 2022 com o fim da pandemia e a volta ao trabalho presencial, comecei a registrar muitas reclamações de ônibus superlotados, já que era comum perder alguns por não ter espaço para entrar. Inicialmente as respostas eram boas, como “notificamos a concessionária” ou “o quadro de horários será revisado”, o que me deu a vã esperança de que algo seria feito.
Com o tempo, os novos pedidos começaram a ser “indeferidos” por não apresentarem o número do veículo. Entendi que a postura havia mudado e apenas buscariam responsabilizar o motorista pela superlotação, em vez de uma revisão sistemática das linhas e suas capacidades4. Entendem agora a relação complicada?
No mesmo ano, registrei que na rua onde morava ocorriam muitas colisões de carro na esquina, pois parecia que os motoristas não viam a placa de PARE no local, então solicitei a pintura de um PARE no chão. A resposta que tive foi:
[…] após realizar vistoria propõe-se a pintura das legendas de PARE, da faixa de travessia de pedestres, faixa de estacionamento, da legenda de DEVAGAR 30km/h, além de placas de advertência sobre a parada obrigatória à frente.
Superou minhas expectativas, já que não só executaram o proposto, como também instalaram um quebra-molas e senti que a minha própria segurança como pedestre havia aumentado5. Seria a fé no serviço levemente restaurada.
Destocas e Plantios
Um ano depois, 2023, vi uma publicação no Instagram do coletivo Bora Plantar6 que explicava como pedir plantio de árvores no passeio da cidade, além da destoca (retirada do toco) de árvores que já tinham sido cortadas para plantio de novas mudas. Achei muito legal e fiquei bastante motivado, até comentei na época que não sabia que dava para pedir também a destoca7.
De lá pra cá em toda andança minha pela cidade eu reparava onde havia canteiros vazios ou troncos cortados, anotava no Google Keep e solicitava. Sim, o tempo de resposta e execução eram bastante variados, assim como a qualidade do serviço, os pedidos tinham três padrões de resultados geralmente:
- A maioria era “recomendo plantio de muda X8” ou “plantio não pôde ser executado segundo DN69…”. Inclusive recomendo ver a Cartilha de plantio de árvores, é muito bem ilustrada e explicativa.
- Alguns poucos retornavam apenas com “plantio executado” ou “indeferido”.
- Uma vez recebi uma análise completa de toda a extensão da rua - onde podia e não podia plantar, a razão e todas as recomendações. Essa resposta foi muito importante para mim por dois motivos:
- Para mostrar que existem pessoas competentes e comprometidas no serviço público, contrariando a “sabedoria popular”.
- Por me mostrar que podia solicitar plantio mesmo onde não houvesse canteiro e, se deferido, a prefeitura abriria um!

Imagem gerada por IA com a descrição “Uma ilustração de um homem de 30 e poucos anos, barbudo e usando óculos redondos com textura de tartaruga olhando para um aplicativo de mapa no celular e fiscalizando canteiros de árvores vazios pelas ruas de Belo Horizonte, Minas Gerais - Brasil.” usando ChatGPT.
Desde então foram cerca de 200 solicitações e, como bom munícipe, acompanhei-as de perto, inclusive indo ao local para comprovar que o serviço tinha sido realizado9. Tive uma taxa de deferimento de mais ou menos 70%10 e gosto de pensar que pelo menos no Gutierrez, fiz alguma diferença para os próximos anos:

Visualização de todos os pedidos registrados. Árvores verdes foram plantios feitos, vermelhas negadas e buracos marrons são pedidos de destoca concluídos
Fim?
Em algum momento de março deste ano, 2025, a página de solicitação de plantio de árvores foi bastante atualizada. Dentre algumas melhorias tivemos a criação de um campo para especificar o número de mudas e outro para dizer se é desejada uma muda de espécie específica, ambas mudanças bem vindas, pois eu teria de digitar menos. Não contei, no entanto, com uma importante mudança para pior: exigência de anexo da guia de IPTU identificada correspondente ao local.
Fiquei desolado, essa mudança acabava assim com o meu passatempo de tentar arborizar a cidade, limitando-me aos meus imóveis11 e a praças ou canteiros centrais, via de regra já bem arborizados. Entendo que a responsabilidade pelos passeios sejam dos proprietários de imóveis e que muitos temam que as árvores o danifiquem12, ao mesmo tempo sei que a maioria deles mesmo não se opondo às árvores nunca irá fazer uma solicitação por desinteresse ou desconhecimento13. A falta de um planejamento centralizado, na minha opinião, só levará a uma cidade com cada vez menos árvores.
O PMAU-BH
Enquanto lidava com a frustração de não poder mais solicitar plantios, me deparei com o Plano Municipal de Arborização de BH, como dito na introdução. Recém apresentado à comunidade belo-horizontina, é um extenso documento de 200 páginas que cobre desde a história da arborização urbana até o planejamento detalhado para os próximos 5 anos. Para os que gostam do tema, é uma leitura bem interessante, seja para descobrir o que está sendo prometido para poder participar e cobrar ou para se informar com uma listagem de todas as espécies catalogadas do município e quais nunca poderão ser derrubadas.
Da minha breve leitura, separei três tópicos que gostaria de ressaltar: continuidade dos plantios, jardins de chuva e programa “Adoro BH”.
Plantios e Árvores Existentes
Segundo o PMAU-BH (página 42), um de seus objetivos específicos é o de:
III. Promover a expansão e a manutenção da cobertura arbórea urbana."
É um excelente objetivo, visto que segundo a tabela 8 (página 180), BH tem em torno de 550 mil árvores e precisa de mais 400 mil para atingir o nível de cobertura arbórea desejado. Alguns questionamentos:
- BH tem uma área de 331km² (IBGE), mas apenas 7,4km² (2%) dela é de parques (página 55)14. Alguns dados impressionantes: o Barreiro é a maior regional e tem apenas 5 parques (0,4km²) e a região Leste possui apenas 1 parque de 0,04km².
- Segundo o Arvorômetro da PBH, desde 2020 foram plantadas cerca de 100 mil novas árvores:
- Metade delas foi plantada na Pampulha que, segundo Tabela 9 (página 180), já possui historicamente o dobro de cobertura arbórea-arbustiva das outras regionais. É fundamental olhar além do número absoluto, já que seria possível “superarborizar” a Pampulha para atingir o índice sem agraciar outras regionais.
- Nos primeiros 6 meses de 2025 foram apenas 2800 plantios. Mantida a média, teremos o menor número de plantios num ano desde o início da série, em 202015. Não seria um bom início para o PMAU.
- Foram 22 mil supressões de árvores desde 2021 e 123 mil podas (página 86), que comumente são drásticas e levam à supressão, o que dificulta ainda mais atingir o nível de cobertura ideal.
- Segundo o PMAU o plantio é comumente dado ou por compensação ambiental ou por pedido dos munícipes (página 83). Apenas 4 mil plantios foram feitos por pedidos desde 2020, número que tende a diminuir com a restrição da apresentação do IPTU.
- São exóticas 45% das árvores existentes (página 125) e apesar de haver previsão de ações contra as invasoras, conforme quadros 19 e 20 (páginas 199 e 202), a prefeitura continua cultivando 20% de exóticas entre suas mudas (página 75). É urgente a redução dessa porcentagem no viveiro e a valorização da flora nativa16.
Assim há muito a ser respondido e abordado pelo PMAU no que diz respeito à manutenção e expansão das árvores da nossa cidade.
Jardins de Chuva
Outro projeto listado pelo PMAU-BH é o da instalação de “jardins de chuva” pela cidade (página 92). Nada mais são do que pequenos jardins com área permeável na rua para coletar a água de chuvas e infiltrá-las na terra, prevenindo que ela escoe e se acumule causando inundações.
Sou muito favorável ao projeto17, já que aumenta a área verde da cidade e pode mitigar o impacto das chuvas fortes. Interessante apontar que ele prevê a adoção dos jardins por moradores, para que esses o mantenham vivo, limpo e funcionando, dando como contrapartida um desconto no IPTU de até 10%. Há um ano, noticiava-se pleno sucesso desse programa, já que havia 64 jardins de chuva e 113 pedidos de adoção, mostrando interesse da comunidade para expansão do projeto!
O cenário atual, no entanto, não é tão animador, já que um ano após a notícia dos muitos pedidos de adoção, 50 deles ainda continuam disponíveis. Gostaria de entender melhor se é a burocracia da própria prefeitura, se há desistência dos interessados ou se os pedidos são indeferidos por não atenderem aos critérios, como por exemplo ter de morar na mesma via do jardim. Isso porque o projeto previa a instalação de mais 200 áreas por ano e, passados dois anos, continuam existindo apenas os 64 originais. Imagino que argumentem falta de interesse da população, apesar de claro interesse coletivo.

Mapa de Belo Horizonte com localização dos jardins de chuva já adotados e disponíveis para adoção
Por fim, o projeto deu-se novamente apenas na área da Pampulha, em “espaço de […] áreas predominantemente residenciais e com baixa circulação de veículos”. Embora seja positivo que ele tenha se instalado em bairros mais periféricos, normalmente pouco agraciados com políticas de meio-ambiente, ainda assim foi feito na regional com maior arborização. A feitura de piloto em outras regionais que comumente sofrem de alagamento e com outras características poderia ser importante para comparar as adesões.
Adoro BH
Um último projeto que destaquei do documento é o “Adoro BH” (página 92). Nele qualquer pessoa física ou jurídica pode adotar um espaço público para ajudar na sua conservação18 em troca de afixar uma placa com a identificação de quem tiver feito a benfeitoria. Além disso, ele prevê também a expansão e implantação de espaços públicos, áreas verdes e recursos hídricos, mas não parece haver muita informação se isso já ocorreu alguma vez.

Mapa de Belo Horizonte mostrando áreas disponíveis e já adotadas via programa Adoro BH
Como visto no próprio mapa da prefeitura, apesar de vigente há dois anos, não parece ter ganhado muita tração, creio que pela contrapartida ser tão irrisória: apenas exposição.
Considerações Finais
Quando comecei a redigir esse texto, mais focado no que seria do meu passatempo de pedir plantios de árvore, jamais pensei que acabaria gastando algumas horas da minha manhã livre lendo o plano de arborização da cidade. Coincidentemente eu já ponderei falar sobre minha relação com a cidade algumas vezes, e posterguei, então calhou de que quando finalmente resolvi, o PMAU acabara de ser disponibilizado. Surpresas da vida, né?
Nesse momento estou bastante cético quanto às mudanças que estão por vir, principalmente pelo pouco progresso anual dos programas que destaquei. Ainda assim, mesmo pessimista, fiz questão de citar todas as páginas e links de onde extraí as informações, por acreditar que a elaboração do plano tenha sido bem feita e, se tivermos mais interessados em executá-lo e acompanhá-lo, pode ser que tenhamos sucesso.
Bora fiscalizar e torcer 😊.
É um mapa interativo onde você pode ver diversas informações a respeito do município, desde dias e horários da coleta de lixo, passando por dados das edificações até a distribuição de antenas da cidade. ↩︎
Infelizmente ainda não dá pra solicitar o conserto de semáforo de pedestre nem online, nem por telefone, da última vez que tentei. ↩︎
É no portal de serviços que se solicita a identificação do condutor infrator em uma multa, no caso algumas que tomei na pandemia voltando para casa com pressa demais 😓. ↩︎
E aproveitando o assunto de mobilidade urbana, já conferiu a campanha do busão grátis de BH? ↩︎
Ainda vi um acidente depois disso, mas se nem o semáforo resolve em alguns casos, não seria a sinalização preventiva que eliminaria essa ocorrência, né hehehe. ↩︎
Que agora percebi que também estava presente no Seminário sobre o Plano municipal de arborização da cidade que compareci em 02/07/2024 na câmara de BH. ↩︎
E fui hostilizado por uma pessoa falando que não dava mesmo, porque a prefeitura nunca fazia. Como bom homem hétero um desafio me motivou ainda mais. ↩︎
Já vi até pau-brasil! ↩︎
Ultimamente estava até usando as próprias bicicletas públicas da cidade para fazer isso, no que carinhosamente apelidei de “ronda das árvores”. ↩︎
Vários ainda estão em andamento. Como disse, o tempo de resposta é bastante imprevisível. ↩︎
Que no caso é só um. ↩︎
34% segundo o PMAU-BH (página 153). ↩︎
Uma vez uma solicitação foi indeferida porque o proprietário da loja disse aos servidores que “a árvore vai encobrir a placa da minha loja quando crescer” 🫠. ↩︎
Confiando no ChatGPT ter feito a conta certa dada a tabela 1 (página 55). ↩︎
Isso porque em 2020-2021 os serviços ainda estavam prejudicados pela pandemia global de COVID. ↩︎
Para mais detalhes sobre valorização de espécies nativas, recomendo seguir o biólogo Ricardo Cardim. ↩︎
E o meu irmão também, que informalmente adotou um em São Paulo, né Tapas? 😊 ↩︎
A Praça da Liberdade, por exemplo, está disponível! ↩︎