Você já sentiu a crise climática?
Quando planejei esse artigo há alguns meses, os noticiários no Brasil não paravam de falar sobre o crescente preço do café e como ele afetaria a todos, já que somos tanto produtores quanto consumidores importantes do grão mágico. Eu mesmo não bebo, mas muitas pessoas com quem me importo consomem e parece ter sido a primeira vez que isso mobilizou as pessoas a conversarem sobre os efeitos de uma crise climática, porque parte das suas rotinas diárias tinha se tornado consideravelmente mais cara em um piscar de olhos.

Imagem gerada por IA com a descrição “Draw a full transparent coffee pot tilted and slowly dripping coffee onto a giant water body, like a water supply reservoir, but every drip is a dollar bill instead of a coffee droplet” using Microsoft Designer.
Claro que todos temos ouvido sobre diversas consequências de desestabilizar o clima: aumento do nível dos oceanos, colheitas menores, maior frequência de desastres “naturais” e padrões de chuva imprevisíveis1, mas essas consequências não tinham atingido algumas pessoas tão diretamente ainda e as pegaram de surpresa. Infelizmente, tenho estado ativamente preocupado com o clima por pelo menos 10 anos😓.
Se você viveu no Brasil no início da década de 20102 você com certeza não escapou de ver as notícias de como a nossa maior cidade, São Paulo, estava se aproximando rapidamente de um cenário de falta de água devido a uma seca extensa que não deixava o agora famosos sistema “Cantareira” ser enchido novamente. As pessoas falavam todo dia qual era o nível da água e que medidas estavam sendo tomadas: racionamento, instalação de bombas para obter água das camadas mais rasas que o sistema de dreno não alcançava, construção de novos reservatórios.
Uma grande “vantagem” desses eventos foi que eles demandaram que as companhias de saneamento implementassem sistemas para informar o nível desses corpos d’água, já que a transparência tornaria mais fácil o monitoramento e a cobrança por qualquer um. Apesar de São Paulo parecer ter a crise mais grave, ela não era a única cidade com uma escassez de água iminente, assim o estavam também o Rio de Janeiro e a minha cidade, Belo Horizonte, e foi assim que uma década atrás comecei a observar isso quase diariamente:
| 24/Abril | 25/Abril | 26/Abril | |
|---|---|---|---|
| Sistema Paraopeba | 88,0% | 88,1% | 88,2% |
| Rio Manso | 93,5% | 93,6% | 93,9% |
| Serra Azul | 79,5% | 79,5% | 79,4% |
| Vargem das Flores | 86,2% | 86,1% | 86,1% |
É um recorte de três dias flutuante dos reservatórios de água que abastecem a cidade de Belo Horizonte3 mostrando a tendência recente de enchimento, esvaziamento ou estabilidade. É belo por ser tão simples e ainda assim conseguir me deixar tão ansioso, já que, se não estivermos vendo chuvas, com certeza as porcentagens estarão diminuindo4 e após alguns meses assim estaremos diante de outra seca.
Por sorte, tivemos uma sequência de anos de 2020 a 2024 onde o sistema ficou completamente cheio. Isso ajudou em me acalmar, porque se está chovendo constantemente5 podemos praticamente dormir tranquilos que o problema será adiado por mais um ano, mas se não tiver, há uma crise hídrica logo ali, que é como dezembro de 2024 se apresentava:

Nível mês a mês do sistema de reservatórios de água que abastece a cidade de Belo Horizonte de 01/2017 a 04/2025
Como eu disse no início do artigo, demorou mais para que as chuvas começassem, mas também está demorando mais para que cessem, então nunca conseguimos saber como será a situação hídrica quando, e se, tivermos uma estação de seca6. Esse é o meu “hiperfoco de crise climática” da última década, o que me leva à pergunta de abertura:
Você já sentiu a crise climática?
E enquanto escrevo, tem consistentemente chovido no último mês em Belo Horizonte, contradizendo a famosa música “Águas de Março” de Tom Jobim que diz que “são as águas de março fechando o verão”. ↩︎
Talvez até mesmo no exterior, já que a situação ficou drástica. ↩︎
Que obtive do site da Copasa em 28/04/2025 e converti para uma tabela nativa do blog para leitura mais fácil. ↩︎
Por sorte não é tão simples, já que pode ter chovido a montante e estar lentamente chegando aos reservatórios. ↩︎
Mas não muito, já que o excesso de chuva causa muita destruição em várias partes da cidade. ↩︎
Se chegarmos a isso, as pessoas não vão parar de recomendar ações individuais como racionamento ou tomar banhos mais curtos, como se fôssemos os culpados e não representássemos uma parte infinitesimal do consumo quando comparados à indústria e o setor agropecuário. ↩︎